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Internet. A loucura do controle disfarçado de liberdade.

Seg 18 Junho, 2007

Na aula de jornalismo On line ministrada pelo professor Fábio Malini, a turma foi apresentada a duas perguntas que se completam e se contradizem, como forma de avaliação.
Por que a Internet é uma mídia de multidão?
Por que a Internet é uma mídia de controle da vida?
Boas perguntas que nos levam a uma grande reflexão. Afinal de contas, qual das duas faz mais sentido e predomina no mundo midiático?

A uma observação superficial imaginei que a primeira tem muito mais a ver com o mundo digital atual. A idéia de multidão, muita gente conectada, milhões de pessoas em contato a todo tempo, de todos os lugares do mundo, liberdade de pensamento, liberdade de expressão, liberdade de escolha – do que você quer ver, a hora que quer ver, do jeito que quiser ver – liberdade até mesmo pra contar umas mentirinhas… Entretanto, ao prestar bastante atenção ao tema, chegamos à conclusão de que quando essa carapuça de liberdade cai, o que vem a tona é a “era do controle” na qual vivemos.

Primeiro vamos ao conceito de multidão. De acordo com Antonio Negri em seu discurso sobre A Constituição do Comum, quando falamos de multidão falamos de um conjunto de singularidades cooperantes. Cabe aqui a distinção entre singularidade e individualidade – o que muitos imaginam que seja a mesma coisa, mas existe uma grande diferença. Individualidade não constitui multidão, e sim massa, conceitos também distintos, pelo incrível que pareça.

Individualidade significa algo que está inserido numa realidade substancial, absoluta, algo que tem uma alma, uma consistência, por separação em relação a uma totalidade, em relação ao conjunto. Individualidade é a identidade irredutível. É o indivíduo massificado pelos meios de comunicação, vindo da relação “um muitos” (como é a TV), relação essa sincrônica e disciplinar (docilização dos corpos).  Ele é manipulado e seus gostos e preferências são basicamente iguais a todos os demais, doutrinados por uma força maior, a mídia. Massa é a soma de individualidades, individualidade é repetição.

A multidão não é assim, nela vivemos com os outros. É constituída da singularidade, em que o homem constrói sua personalidade, seus pensamentos por meio desta relação de cooperação e diferença. Sem o outro ele não existe em si mesmo. A multidão é própria do ciberespaço, em que não existe a relação “um-muitos” da TV, e sim uma relação “muitos-muitos”.

O professor Fábio Malini sempre exemplifica isso de forma simples: a maior comunidade do Orkut (que atualmente é “Eu Odeio Acordar Cedo”) tem quase 3 milhões de integrantes, numero ínfimo quando comparado ao pico de audiência da rede globo, que chega a ter 80% da audiência do Brasil, o que só na grande São Paulo representa 5 milhões de pessoas. Isso quer dizer que na internet não existe um ponto irradiador de informações e um exército simultâneo que assiste aquela mesma informação definida. Portanto, na internet não há manipulação, e sim uma multiplicidade de informações, muitas vezes construída pelos próprios usuários, por meio da interação entre eles, como é o caso de programas como Orkut, Wikipédia e You Tube. Os próprios usuários produzem o conteúdo e, teoricamente, podem escrever o que bem entenderem, sem restrições. Podem expor seus pensamentos, seus sentimentos. Pode falar da textura da meleca que sai do seu nariz se você quiser.

Isso tudo traz uma sensação muito grande de liberdade. Realmente a Internet é uma mídia de multidão, onde uns interagem com os outros (singularidades cooperantes) de maneira livre e há uma completa diversidade de pensamentos. Inclusive, a própria internet foi construída dessa forma, por meio da interação dos hackers que foram criando em conjunto um software livre, fazendo uso da colaboração voluntária, aberta e auto-organizada entre programadores do mundo inteiro. O espírito hacker consiste na recusa de idéias de obediência, de sacrifício e de dever, e eles não são apenas meros espalhadores de vírus pela rede, como ficaram conhecidos pejorativamente.

Mas vamos agora pensar nessa rede de relações abertas de maneira mais profunda. Para isso vamos analisar a rede de relacionamentos do Orkut, mais especificamente. Será mesmo que ele representa liberdade?

Pelo Orkut você consegue saber sobre tudo na vida de uma pessoa. Se ela namora ou não, quem são seus amigos, do que ela gosta, lugares que freqüenta, onde foi noite passada, onde irá passar carnaval e até mesmo se cortou o cabelo recentemente. Isso por meio das fotos, comunidades e recados lá presentes. Não só presentes no seu orkut, mas também nos dos seus amigos, onde podem estar fotos ou conversas relacionadas a você. Então, existe uma forma de controle maior do que o Orkut? Logo quando eu abro a minha página principal do programa ele me alerta que lá eu estou conectada com 57.431.788 pessoas, ou seja, posso estar sendo controlada diariamente por todas elas. O Orkut é sinônimo e exposição, o que proporciona o controle. 

Vamos supor que um empreendedor quer montar um negócio em Vitória. Uma boa forma de pesquisa é procurar as comunidades de Vitória no Orkut e lá ver pelo que os integrantes delas se interessam.

No blog, se você quiser seguir seu conteúdo pela audiência, você tem como rastrear de que forma as pessoas chegaram a sua página. O que ela procurou no Google que caiu ali. Então existe um ranking que exibe o que as pessoas procuram mais. Isso também é controle. E é bom lembrar que você não está completamente anônimo na rede. Qualquer “merda” que você faz no ciberespaço pode ser rastreado. Pode ser encontrado de qual computador aquilo foi feito… Onde está a liberdade plena?

Iclusive é notório que o Google domina o ciberespaço. Em um artigo de Paulo Coelho, é observado algo interessante. Se digitarmos “Tiananmem Square” em qualquer lugar do mundo, e formos direto para imagens, teremos a famosa confrontação do homem com suas sacolas diante dos tanques de guerra. Mas o Google fez um acordo com a China, para poder entrar com seu mecanismo de busca no país. Portanto, se digitarmos usando o www.google.cn, a primeira imagem é de um casal da embaixada americana. A reputação da praça permanece intocável, graças ao mecanismo de busca que tratou de filtrar aquilo que não lhe interessava. Portanto, quem detém o poder da reputação hoje é quem detém o filtro… Então, onde está a liberdade da internet?

Tianasquare.jpg

Se você é um simples mortal e está numa praia. Lá você encontra aquela grande estrela da mídia num comportamento excessivamente íntimo com o namorado. Filma isso e põe no You Tube. Em um dia milhões de pessoas já viram esse vídeo em todo mundo e sua reputação está arrasada. Isso é controle. Mas, mais controle ainda, é o tal vídeo depois ser proibido de estar lá.

Mas, na minha opinião, isso tudo simplesmente segue uma tendência pós-moderna dessa nova Revolução tecnológica. Estamos na era do controle, em que nem um simples passeio pelo calçadão torna-se livre de qualquer regulação. No livro “A reputação – na velocidade do pensamento” de Mário Rosa, ele fala que, devido ao aumento da criminalidade, a polícia do Rio de Janeiro instalou 16 câmeras em pontos estratégicos da orla de Copacabana.
“Seja você um industrial que queira se encontrar com um concorrente, as autoridades que zelam pela defesa econômica podem ver no seu contato um indício de formação de cartel. Seja você um artista ou esportista que tenha conhecido na infância alguém que enveredou pelo tráfico de drogas, esse contato poderá arruinar sua imagem caprichosamente esculpida ao longo de anos. Seja você um político em um contato impróprio pode decretar o fim de sua carreira. Seja você, por fim, uma pessoa comum e alguma coisa que você possa fazer, ou alguém que você possa encontrar, pode se transformar no início de uma grande dor de cabeça”.

Imagine como isso faz sentido, como realmente somos vigiados a todo o momento. É como aquela teoria do panótipo – existe uma torre que tem vista para todo o ambiente, mas você não sabe se ela está olhando pra você no momento. Entretanto, nessa dúvida, sente-se controlado, e por isso segue as regras. A cada dia, fica mais fácil o registro de qualquer movimento. Câmeras digitais portáteis, celulares que filmam e tiram fotos com ótima qualidade. Com um clique e um cabo USB você transmite um momento inoportuno para o resto do mundo por meio da internet!

Vivemos hoje envolvidos numa teia de tecnologia tão disseminada que muitas vezes nem nos damos conta disso, principalmente nos hábitos mais banais de nosso dia-a-dia. O orkut segue as tendências modernas de regulação e controle dos indivíduos.  Assim, preservar a imagem e a reputação significa percorrer um território social cada vez mais hostil e complexo.

Por Paula Varejão

P.S.: Parece que aqui no brasil não te cmo fazermos esse teste. É, eu também tentei. é poque quando digitamos o endereço com o final “cn” ele é direcionado para a página do Google brasileiro com final “br”. Isso faz com que não consigamos acessar a foto do casal a partir do Brasil.

Um comentário

  1. [...] Relaciono os textos de Ludmila, Mônica e Paula. [...]



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