
Eremita.
Qui 21 Junho, 2007Era só um quarto escuro. O chão frio já não incomodava, ele já havia se acostumado a aquele piso áspero e irregular talvez porque suas costas já estivessem a muito tempo calejadas por aquelas irregularidades do terreno. Ele queria sair, pensava freqüentemente em sair. “Mas para que?”. Aquele quarto era seu refúgio, sua cela, seu abrigo, sua prisão. E ele pensava em sair todos os dias. “Ver o sol mais uma vez, olhar o sol até que minhas retinas se queimem para sempre…”
Mas estava enclausurado. Ele já não se lembrava se aquela prisão tinha sido voluntária ou imposta, simplesmente se acostumou a ficar ali. Só. As suas únicas companheiras eram suas idéias, como vozes que lhe davam algo para acreditar. “É melhor assim!”- diziam as vozes em sua cabeça. “Aqui você não precisa esperar por ninguém, não precisa de ninguém e vê? Ninguém também precisa de você, senão já teriam te encontrado.”
Aquilo o deixava estranhamente confortável. Ter tudo e ao mesmo tempo não ter nada era pesado demais para ele. Muita carga para um homem tão fraco e egoísta. “Você só precisa de você mesmo” – repetiam as vozes dentro de sua cabeça. A sensação de não precisar mais agradar, felicitar e conquistar ninguém. Era tudo que ele fazia antes. Criando uma identidade para ser o que ele não era e no final ele não era nada. Falsos amigos, falsos amores, vitórias desprazerosas.
Ele desistiu do mundo. Cansou-se de tudo aquilo. Ter esperança era doloroso, frustrante e eram suas frustrações que o matavam aos poucos. Mas ele ainda desejava ver o sol. Depois de muito ponderar, levantou, e andou lentamente até a porta. Ao abrir ele se ofuscou por alguns segundos e quando olhou para fora viu um clima nublado, escuro e cinza. Então a porta se fechou.
Era só um quarto, era só um homem mas naquele quarto, ele era o que era. E não precisava mais de ninguém. Só das suas vozes, só da sua loucura, só da sua solidão.
Por Daniel Vieira