Mantive-me são. Dentro daquela normalidade do mundo, um dia, um mês, um ano. Enlouqueci tantas vezes, brinquei com minha cabeça, coloquei-a a prêmio que o desafio da sobriedade e da normalidade pareciam ser extramente interessantes. Como se de tão louco estar a loucura se tornar algo normal e o normal se tornar em algo fabulosamente estranho.
Então mantive-me são, mas simplesmente a sanidade já não está para mim como o Sol está para o dia. Nublou-me o tempo e a tempestuosa loucura brinda comigo durante todo o dia e quando durmo torço para que o Sol brilhe por debaixo das nuvens e eu volte ao que já fui… Mas jamais voltarei. Tantas foram as vezes e com tanta força desejei a loucura que ela se instalou como um câncer em meu corpo, foi dominando meu cérebro e, enfim, quando quis deixá-la de lado já era tarde demais.
Para que manter-me são se a sobriedade do mundo tenta me destruir? Se não há paz na sobriedade, se não há nela nenhuma felicidade, se a realidade só nos consome? Porque só assim sabemos que estamos realmente vivos. A loucura certas vezes parece a morte, ou até quem sabe o sonho. Com suas asas sob sua cabeça não necessitamos dos outros e os outros não se importam. É engraçado, louco, você consegue se manter só, não como um eremita dentro de sua gruta profunda mas sim como um fantasma no meio da multidão, não se importando se aqueles que te cercam valem algo para você.
Mas a loucura é egoísta. Vem e te toma como uma amante, te prende e fascina e quando você tenta livrar-se dela, simplesmente, esqueceu como era o ser são. Enlaçado em suas teias você se debate, sabe que está preso, mas quanto mais tenta fugir dessa agonia mais firmemente preso está a ela, mais fios ela joga em sua mente, menos você consegue sobreviver. A insanidade é como um caminho que a cada passo dado dentro dela um abismo se abre no passo anterior e, caso tente voltar, cairá para sempre dentro de uma nova loucura.
Então, mantive-me louco. Amando minha própria loucura, desejando-a todo dia. Desisti de voltar e nesse caminho sem volta seguirei, então, com alegria.
Por Daniel Vieira
