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Ser inteligente e infeliz, ou burro e feliz?

Seg 22 Outubro, 2007

Eu estava lendo um fórum na internet outro dia e me deparei com essa frase, muito interessante e verdadeira, sobre como a inteligência pode influenciar diretamente na felicidade. Acho que isso é tão antigo e sombrio quanto o pensamento humano. Já no Gênesis bíblico, que para mim é uma grande e interessante metáfora, existe uma referência a essa pequena e conturbada pergunta. Se não me engano, o fruto que era proíbido tinha o nome de “Fruto do Conhecimento” e quando este foi comido por Adão e Eva eles tiveram grande sofrimento. O que isso significa?

Significa, claramente, que a nossa existência quando baseada em racionalismo, realismo, ou seja lá do que desejem chamar, nos tornam pessoas amargamente infelizes. Pensar enlouquece, entristece, machuca. É como se ao criarmos teias gigantescas para sistematizar a vida e o mundo, percebemos como o ser humano é falho, como nós mesmos somos falhos e como aqueles de quem dependemos e queremos bem também são falhos. Vemos que apesar de tudo que façamos o mundo e o homem jamais serão perfeitos e tudo não passa de uma grande loucura cheia de erros e falhas grotescas.

Será que vale a pena ser inteligente e, graças a isso, sofrer? Ou valeria muito mais, desconhecer a simples malevolicidade do mundo e sorrir diante da própria ignorância? Eu a muito tempo, tenho tentado me equilibrar num caminho mediano. Eu conheço exatamente como meu pensamento funciona, até onde minha cabeça tenta e pode me levar quando eu a deixo pensar. Dizem que o trabalho enobrece os homens, os torna felizes e essa ladainha toda. Hoje, concordo em parte. O trabalho ocupa a cabeça e a forma de eu tentar fugir da minha própria inteligência é matando-a com ocupações intelectuais repetitivas e mecânicas: Trabalho. Eu entendo, numa visão muito cética e quem sabe até pessimista, que o trabalho emburrece os homens.

Lógico, não existe somente o trabalho como uma forma de matar a inteligência e fugir do demônio, que isto pode se tornar se não for domado. Existem outras formas, mais simples porém, muito mais perigosas. Formas, digamos, de emburrecer temporariamente e assim buscar abraçar por algum tempo aquela satisfação besta que chamamos felicidade. Eu uso o desvinculamento com o meu mundo, seja bebendo, seja saindo com pessoas diferentes, seja simplesmente ligando um interruptor do foda-se na cabeça e deixando todo o resto pra lá. Mas é sempre temporário, não adianta, sempre que consigo manter por algum tempo o meu demônio enjaulado ele se volta contra mim e vem revigorado, sedento por sistematizações e novamente me vejo pensando, e como alguém disse e uso essa frase repetidamente: pensar enlouquece.

E ultimamente eu tenho convivido com pessoas, digamos, que não possuem o demônio em suas cabeças, ou se possuem o ignoram completamente. E eu vejo, claramente, como essas pessoas são mais satisfeitas com a vida e, por ignorarem, são mais felizes. Pessoas que almejam muito pouco, beirando até a mesquinharia, mas mesmo assim são felizes. A burrice inerente delas gera uma falta de preocupação com coisas que seriam motivos de preocupação para alguns, a burrice delas os torna mais realizados com necessidades menores que as daqueles que são inteligentes, a burrice deles os torna até melhores, certas vezes, que aqueles que são inteligentes.

As vezes, sinceramente, nego a minha própria inteligência. Desligo a chave geral e assim tento rir da desgraça e sorrir do pouco e me satisfazer com isso. Até admiro e, de certa forma, invejo quem não se preocupa com isso e simplesmente é feliz em sua grata burrice e ignorância. Mas certamente estou seguindo pela trilha do meio, as vezes me “emburreço” para rir dessa coisa que chamamos mundo e quem sabe ser aquilo que chamamos feliz.

Por Daniel Vieira

Ps: Entendam, burrice e inteligência são conceitos muito mais amplos que simplesmente notas em faculdades e essas coisas. Nota em faculdade, muitas vezes é baseada na repetição e reprodução daquilo que se aprende. Inteligência na minha visão e de muitos outros é uma forma de raciocínio e não de reprodução. Pensar é ser inteligente. Burrice é ignorar o que está a sua volta e o que te cerca, fechar os olhos para tudo além do teu próprio umbigo. Logo, para aqueles que se sintam ofendidos, entendam primeiro os significados das coisas, para quem sabe depois, continuarem ofendidos. =]

6 comentários

  1. Ser como um animal irracional é melhor porque eu posso me desligar dos apegos mudanos e me focar somente no que me interessa (nutrir-me, habitar-me, alegrar-me; estas três coisas bastam).


  2. Concordo, pensar enlouquece. Pessoas inteligentes verdadeiramente tecem várias conclusões e se deprimem com o resultado delas, mas NÃO jogam tudo no lixo, e sim as misturam como numa receita de bolo, a fim de chegam no resultado que mais as apraz. É a receita dos loucos.
    Afinal, chega-se a conclusão de que tudo o que sabemos é a percepção incompleta de uma possível realidade. O que tanto chamam de “O segredo” nada mais é do que programação mental para a percepção de coisas consideradas boas.

    Escolhi moldar um mundo mágico para mim, sei aliá-lo a rotina do dia-a-dia, e considero-me mais feliz do que muitos burros que se apegam demais à realidade (imutável, por não pertencer à cabeça deles)… Mas de acordo com o ditado, devo ser burra, afinal, pessoas inteligentes sofrem.


  3. É bom saber que não estou sozinho


  4. Nossa inerente ‘inteligência’ fascina os concidadãos ao mesmo passo que nos trancafia num mundo que criamos apenas para nós mesmos. A eterna busca pela essência das coisas é execrante, mas é uma de nossas maiores qualidades e, infelizmente, é uma qualidade que nos torna miseráveis. Se pudesse optar, seria apenas uma burra feliz.


  5. que interessante. estava discutindo com minha mae sobre este assunto.
    nos duas queriamos arrumar um emprego de camareira…rs…daria mais tempo de pensar…rs…mas fomos dispensadas apos a entrevista.
    Motivo? inteligentes demais,conhecimentos demais.
    Ate para arrumar emprego de burro tem que ser burro.nao pode nem pensar. Tem base?


  6. [...] 28/4/2009 – Encontrei por acaso este texto que fala um pouco sobre esse aspecto de as pessoas inteligentes sentirem uma certa dificuldade em [...]



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