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O poder da palavra

dom 21 agosto, 2011

Ouvi, por mais de uma vez, que os textos tem que ser encurtados. De verdade, eu ainda sou um camarada que crê no poder das palavras. Não devemos ser prolixos, claro. Schopenhauer já dizia: não devemos enganar os leitores com palavras vazias. Mas, de verdade, acho que confundem prolixidade com profundidade no jornalismo.

Sabe quando lemos textos em alguns lugares e sentimos necessidade de mais? Os fatos estão perdendo as nuances, o jornalismo está perdendo as cores. Se antes alguns carregavam nas tintas, agora parecem que perderam todas. Esboçam um rascunho com o lápis e o que era pauta vira notícia. O que precisava de comprovação torna-se a reportagem. O que era passível de dúvidas tornou-se o fim, não o meio.

De onde surgiu o problema? Pode ser a preguiça. A falta de tempo. A concorrência. A necessidade de desovar aquela informação e partir para outra. Mas vejo os jornais mudando, com textos menores. Quem disse que o leitor não quer ler?

Aliás, se eu paguei por um jornal ou uma revista, supõe-se que quero ler. Se eu quisesse ver figuras, ficava na internet. Se as pessoas não estão lendo, a culpa é o texto ruim, pouco creditável, não a falta de bagagem, ou tempo, ou vontade de ler. Culpam os leitores, a internet, o mundo globalizado, o diabo. Mas a culpa nunca é dos próprios jornalistas, escritores ou seja lá o nome que desejem dar.

Por mais que eu deteste o tal do lead, da pirâmide invertida e outras técnicas aprisionadoras de texto, sei e me importo com sua validade para o jornalismo diário. Claro, vale muito. E se o cara não quiser ter MAIS informações, que leia só os dois primeiros parágrafos. Mas se excluirmos o resto do texto, negaremos o conhecimento e a informação àqueles que querem possuí-la!

Nivelaremos a informação por baixo. Superficial. Arranhando apenas. Lembro-me de uma crônica de Machado de Assis, a da espada. Li numa aula de crônicas do José Irmo Goring. Machado, no século XIX, dizia que ele gostava de olhar pro mínimo e pro escondido. Oras, e não é isso que aprendemos durante a faculdade? Que nosso dever é desentocar verdades, apresentá-las, jogar luz e todo esse papo acadêmico?

Se arranharmos a superfície apenas, faremos nada além do que socializar uma informação, quase como as fofoqueiras da esquina. Elas viram um cara entrando na casa da vizinha casada, mas não sabem se é o encanador ou o amante e, por isso, falam, especulam, usam o futuro do pretérito. “Suspeita-se que aquele seria o amante da vizinha”, disse uma fofoqueira à outra. Isso não é jornalismo. Pelo menos não o que eu acredito ser.

E não é necessário ir muito longe para ver bons exemplos. Textos de Kotscho no Grupo Estado (JT). Textos de Joel Silveira na Guerra. Textos publicados em Realidade, no final da década de 1960.  Para citar um contemporâneo, os textos do Leandro Fortes na revista Época, que originaram o livro Dossiê Cayman. O infinito Zuenir Ventura.

Jornalista, mais que apresentar um retrato da realidade, deve responder às perguntas. Deve aprofundar. Deve mergulhar num fato. Apresentar todas as nuances, detalhes sórdidos, contornos. Só assim uma obra jornalística será completa e cumprirá sua função: informar. Pois todo o resto é desinformação.

Por Daniel Vieira de Figueredo

Um comentário

  1. parabens pelo texto…



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