
O sonegador, o corrupto e o corruptor
qua 7 setembro, 2011Todos os dias, quando lemos revistas, jornais, sites noticiosos e afins, temos notícias de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes que afetam os cofres do governo. Oras, expõe-se políticos, diretores de estatais, de autarquias federais e estaduais. Afinal, são dirigentes partidários, que recebem dinheiro proveniente de nossos impostos e que gerem esse dinheiro para prestação de serviços.
Alguém já viu uma notícia abordando os corruptores? Os grandes grupos empresariais que desviam os recursos de impostos, superfaturam obras, dão caixinha? Ouvi, de um amigo de um empresário que faz uma obra aqui no ES, o seguinte absurdo: se você não se enquadra no esquema, é melhor fechar a empresa e desistir de fazer obras públicas. É o mesmo tipo de argumento que escutamos de sonegadores de impostos.
No fim, todos são agentes da corrupção. Do empresário que não emite nota fiscal, ao jornalista que omite o nome da empresa denunciada de corrupção. Sempre existe um interesse envolvido na questão.
Por mais que tentem diferenciar alhos de bugalhos, não existe diferença. O imposto é devido por lei ao Estado. Se eu sonego, logo estou deixando de colocar a minha parte no bolo . Esse bolo não é do governo, é da nação. É meu, é seu, é nosso. Os cofres públicos, como dizem por aí, deveriam se chamados de cofres do povo. Talvez ficasse mais claro.
A distinção é falsa. Até por que, se uma obra está superfaturada, é por anuência da empresa. Se os impostos são sonegados, é com anuência da direção. E não me venham com aquele papo de quem não sonega, não sobrevive. Só não sobrevive pois algumas empresas, de forma desleal com a concorrência, se “desoneram” de uma parte do custo produtivo. Aí sim, quem não sonegar não sobreviverá, por culpa do próprio empresário, não do Estado e dos impostos altos.
A corrupção só acabará no Brasil (ok, muito otimista, diminuirá seria o certo) quando começarmos a apontar o dedo aos empresários corruptores com o mesmo ódio que apontamos dedos aos políticos. Àqueles que se beneficiam, entra governo e sai governo, das negociatas, negócios escusos e anonimato total. Esses são os maiores vilões da história.
Se houvesse pressão popular, interesse dos meios de comunicação, mais que fichas limpas e sujas de políticos, exigiríamos fichas limpas, transparência e idoneidade das empresas que contratam com o poder público. Exigiríamos devassas nessas empresas. Trataríamos de maneira igual, ou até pior, o corruptor. Afinal, sem ele, o fato não existe.
Por Daniel Vieira
O problema é exatamente esse: a falta de caráter dos órgãos públicos. O Brasil não consegue se livrar dessa cultura arcaísta e colonial, é algo que está enraizado.
Acompanho seu blog há muito tempo, e tenho preferência por alguns posts. Mas em geral, está de parabéns pelo conteúdo e pela qualidade do blog, Daniel.
Fernanda,
Eu acho que vai além da falta de caráter dos órgãos públicos. Por incrível que pareça, eu acredito no caráter das instituições. Para existir corrupção, infelizmente, existem dois lados. O que corrompe e o que é corrompido.
Não é um simples furto/roubo (apesar de acreditar que devesse ser enquadrado criminalmente dessa forma). Duas partes sempre se beneficiam dessa história.
Os políticos, por um lado, recebem propina e outras coisinhas mais. Mas e quem dá esse dinheiro? E o empresário que facilitou, intermediou, foi cúmplice? Esses não aparecem.
Quando dizem “o PT é corrupto”, ou “no PSDB só tem ladrão”, esquecem de dizer quem que corrompe o sistema público. É muito além de política.
É um sistema que envolve empresas privadas e pessoas dessas empresas. Elas fazem negócios com o setor público, seja numa obra, seja num contrato de prestação de serviços.
Se está superfaturado, quem recebe a mais? Não é só o político, alguém de lá recebeu por isso também! Ou seja, é tão ruim quanto, ou pior.
Mas a pressão/culpa recai sobre os políticos, única e exclusivamente. Como se o setor privado, no fundo, não fosse tão culpado quanto os políticos com os quais negociam.
P.S – Obrigado pelo elogio ao blog. Tenho recaídas, paro de postar. Mas ficou uma dúvida, qual tua preferência dentre os posts daqui?
Abs.
Daniel
Boa noite, Daniel,
Não esperava que me respondesse, então deixo aqui meu agradecimento, antes de mais nada.
Bom, na realidade eu coloquei a questão partindo de um modo geral e inicial. Por isso mencionei a cultura arcaísta e colonial. Mas concordo com teu comentário.
Pouquíssimas são as pessoas que sabem o significado de cidadania, socialismo, direitos e deveres. Suas mentes parecem estar cheias de algodão, e logo se “esquecem” de pensar. É muito cômodo deixar que os outros façam esse papel por eles.
Diante de um mundo tão vil a mediocridade chega a sufocar o mundo contemporâneo. Às vezes tenho a impressão de que vivemos sob um regime niilista existencial. A vida nos empurra, diariamente, um rítmo capitalista, autoritário, egoísta e materialista, onde a independência, o sentimento de liberdade e o estado de autonomia, se tornaram quase imperceptíveis. Um grupo arrogando a si méritos excepcionais em um mundo que traça o que cada indivíduo deve ser para ter. Ou seria ter para ser? Lamentável não é a morte, e sim a vida que as pessoas vivem ou não vivem até chegar lá
P.s: Sim, eu notei. Inclusive, imaginei que não fosse ler mais nada aqui e achei uma pena.
Quanto aos posts… Vou citar alguns: “Isso sim é loucura”; “In-existência”; “E nunca é suficiente”; “Aleatório?” e “Falsos adoradores”. Mas, em especial, gostei muito do desabafo “Entre um charuto e um cigarro”, no tag Devaneios. Assim como você, optei por ser jornalista, e tive a mesma frustração diante do que realmente é feito durante os períodos da faculdade.
Abs.
Até a próxima.
Fernanda, boa noite,
O problema, acredito, seja a falta de esclarecimento. Poucos são os que sabem direitos e deveres, o “certo” e o “errado”, na verdade. Quando sabem, usam do relativismo.
No fundo, não creio em ninguém incorruptível. Mas creio, sim, que o esclarecimento torna a sociedade um pouco mais justa, um pouco menos corrupta.
Quantos jornalistas que você conhece que sabem, no mínimo, direitos do consumidor, por exemplo. Sinceramente, os que conheço são poucos. Posso contar nos dedos. E isso, digo, por sermos os que serviriam para informar. Mas como podemos informar se desconhecemos o que é o certo?
Sabe, quando não existe cobrança, ou nenhum laço moral e ético para frear os impulsos, é muito fácil seguir para o outro lado, o da corrupção e etc.
Só que, numa sociedade onde a malandragem ainda é venerada, o sinal de alerta demorará a apagar. É necessário uma mudança cultural. E isso demorará anos.
O primeiro passo, pelo menos, creio que o país deu. Estamos melhorando nosso índice educacional.
Mas acho que é insuficiente, se quisermos um país mais justo e honesto. E aí volto a tecla do esclarecimento. Pouco adianta saber física, geografia e matemática se o aluno desconhece o mínimo dos seus direitos e garantias que constam na Constituição Federal, da formação do estado, de quem são os representantes políticos e o que eles fazem.
Mas isso é uma outra história =p
P.S – Estou mudando de domínio. Ainda em fase de migração, mas agora estarei no http://www.loucuraembutida.com.br . Se puder continuar visitando, será muito bem-vinda e serei grato!
Abraço!
Daniel Vieira
Olá, Daniel.
É chato bater na mesma telca, mas a questão educacional é condição si ne qua non para que tenhamos um avanço de caráter ideológico. Hoje vivemos um parâmetro reconstruído, quase uma ideologia anarquista da década de 70. Mesmo assim, talvez seja loucura mas, acredito na revolução quando lembro que há 50 anos atrás a Europa vivia se matando feito selvagem, só amadureceu após duas guerras. Possivelmente, bem possivelmente, eu não estarei aqui para assistir esse feito, mas o Brasil pode chegar ao estágio de transcendência.
P.s: Parabéns pela nova fase e obrigada pelo convite. Continuarei sim acompanhando seus posts. Vou agora mesmo dar uma lida.
Até mais!